Passando dos Limites
Se eu quisesse me safar da responsabilidade por ter roubado aquele carro, diria hoje que foi um ato impensado. Não foi, eu sabia o que estava fazendo e foram segundos muito bem calculados. Medindo todas as possibilidades de acertos e erros, minha consciência o invadiu antes de qualquer onda de coragem inconsequente. Um impulso raro. Provavelmente, o mesmo impulso que um dia me fez inventar uma história qualquer para o meu ex-marido, sair com um desconhecido, voltar apaixonada sem nem sequer tê-lo traído, mas fingir durante anos que nada daquilo havia acontecido. Pode parecer estranho, mas a mesma força que um dia me fez romper acordos de fidelidade, estava me fazendo roubar um carro.
Mesmo modelo, ano, cor... Idêntico ao Opala que herdei do meu padastro. Deu saudade do barulho dos seis cilindros, da rigidez do câmbio nas passagens de marcha, da sensação de controlar o bicho incontrolável que me senti quando aprendi a dirigir. Podia voltar e dizer ao dono que só o peguei emprestado, que não tinha intenção de machucar ou prejudicar ninguém, só diriji-lo. O fato de eu ser mulher, nunca ter feito nada parecido e sentir vontade de infligir as leis somente para desafiar a mim mesma, não me isentaria da responsabilidade por ter me apropriado de algo que não era meu. Mas, como mulheres sempre me pareciam inofensivas, achava que sim. Achava que podia me safar, que voltaria a tempo de passar despercebida e até mesmo ser perdoada caso o dono viesse a descobrir. Lembro de ter pensado a mesma coisa sobre a história mal contada que inventei durante o período em que estava casada. A atração que senti foi maior do que o fato de que éramos casados com outras pessoas. Fui egoísta, ignorei os riscos de perder quem eu realmente amava e, mesmo dizendo que não, estava apaixonada e achava que aquele era um sentimento tão imperdoável quanto qualquer sexo extra-conjugal que eu viesse a ter. Na verdade, talvez eu fosse dona de uma excelente meia coragem, não é mesmo? Tinha coragem para me apaixonar, marcar encontro, beijar na boca e fugir do motel sem transar. Coragem para roubar um carro e alegar saudosismo. Não, não havia mais o que alegar... Talvez, por isso, não acreditasse mais nas pessoas que diziam ter feito algo errado sem querer, sem pensar... Os impulsos e os olhares diziam muito mais do que as explicações dadas para justificar fracassos, deslizes, imprudências e vazios. Os meus diziam somente "acelere!".
Dei a volta no quarteirão sentindo o pulsar do coração me atropelando os pensamentos. Minha mente queria uma grande fuga, meu juízo me pedia para voltar e devolver aquele carro. Esse era o grande prazer que sentia nos meus raros momentos de coragem: era facílimo calar todo o juízo que eu exibia no dia-a-dia, durante o trabalho, nos jantares de família... Quem diria que dali em diante eu seria só prazer?
Não voltei com o carro, assim como não deixei de me apaixonar pelo tal desconhecido só porque estava casada. A única diferença foi que, com o Opala, eu iria até o fim.
Fui, conscientemente, me afastando cada vez mais da rua onde havia o encontrado e segui em busca de alguma avenida que me desse espaço para atingir a velocidade que eu queria. E teria sido fantástico, se não fosse o fato de que a cento e vinte quilômetros por hora corre-se muito rápido. Rápido o bastante para perder o último retorno, e a vida seguir totalmente outro rumo.
Continua...
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SE VOCÊ ESTIVESSE DE CASAMENTO MARCADO E PUDESSE ESCOLHER CADA DETALHE DA SUA DESPEDIDA DE SOLTEIRA, QUE DESEJO SECRETO VOCÊ REALIZARIA?
