março 17, 2008

Na Natureza Selvagem


- Eu não vou sentar aqui na última fileira!
- Nem eu lá na frente!
- Eu não enxergo!
- Eu sou muito alto!
- Eu não enxergo!
- Impossível! Só se você for cega!
- Eu sou cega!
- Xiiii. O filme vai começar.
- Droga! Nunca mais venho no cinema com você...
- Tsc...
- Hum...Sorte sua que dá pra ler.

Sorte mesmo. Porque eu teria torcido o nariz do meu querido gigante se não tivesse visto a atuação de Emile Hirsch e escutado as canções de Eddie Vedder no filme Na Natureza Selvagem. Sem contar a falta de consideração, embora ele não fizesse idéia de que só estávamos lá por causa dele e não - como tratei de convecê-lo - porque eu fazia questão de ver o filme. Calma, eu conto...

Quando vi o trailler de Na Vida Selvagem pensei em assiti-lo porque aquele maluco do Alecsander Supertramp indo atrás do Alasca se parecia levemente comigo atravessando Brasil, Venezuela, Colombia, Equador, vulcões... e fugindo de si próprio com a desculpa de que a vida vale mais do que o dinheiro que podemos ganhar. Depois, na hora de escolher o filme, encasquetei que havia algo de bom nele para os olhos do meu querido gigante. E, como ir ao cinema ainda é atividade social, tratei arrastá-lo comigo.

Meu querido gigante é um homem lindo, engraçado, bem educado por uma boa mãe, coração bom abençoado pelo pai que teve. Mas ele tem um mal terrivel que lhe aflige assim como atinge boa parte das pessoas espalhadas pelo mundo, sabe? O mal da superficialidade. Não, ele não é um homem superficial. Muito pelo contrário. Mas ele acredita nas pessoas, e nem sempre as pessoas são boas quando estão na superficie. E nem sempre importa o que elas dizem que importa. E as vezes eu olho pra ele e vejo que bem ali dentro, no fundo daquele peito, ele sente uma vontade enorme de fazer tudo diferente... E foi por isso que achei que o filme lhe faria bem.

Não que eu saiba. Adoraria saber o que é importante nessa vida e o que não é, mas nem para mim mesma eu sei. Mas eu sei o quanto de bobagem podemos fazer com nossas vidas na tentativa de corresponder expectativas. Não sei se o Alecsander Supertramp teria sido mais ou menos feliz sendo o Chris que ele nasceu. Não sei se o certo é viver a vida que realmente queremos ou a que nossos pais gostariam. Nao sei se é certo ou não jogar uma vida simples e convencional por uma aventura. Nao sei o quanto é importante ter uma carreira, filhos, família... Não sei.

Na Natureza Selvagem faz você pensar o tempo todo sobre essas coisas. E não é um desses filmes idealistas bonitinhos que faz a gente querer largar tudo e correr atrás do nosso Alasca pessoal. Não é. É tão cansativo (mentalmente e cronologicamente) que se torna impossível não dar valor aos cotidianos comuns e até mesmo ao dinheiro que Chris tanto despreza. O filme te leva aos extremos dos conceitos de liberdade. Faz a gente querer conhecer pessoas por aí. Conhecer por conhecer. Conhecer como só conhecemos quando estamos livres. Conhecer sem segundas intenções, sem interresse algum, pelo prazer do encontro e da troca. Sai do cinema com uma porção de interrogações sociais. Me perguntando até que ponto somos capazes de perdoar e oferecer perdão, até que ponto vale a pena fugir para tentar se encontrar, até que ponto o dinheiro e as aparências nos tornam pessoas realizadas e em paz.
Chris pode ter tocado a vida de muitas pessoas, era capaz de compreender qualquer coração abandonado numa estrada. atirava o próprio corpo em situações de risco com a coragem daqueles que não temem a morte, mas não conseguiu perdoar os erros do pai e da mãe a tempo.

Talvez não haja certo ou errado, talvez só a construção da História seja importante. Não sei... Hoje em dia, me pego pensando que os vilões são tão necessários quanto os heróis, que é a tristeza de um que eleva o caráter do outro. Que toda transformação só acontece a partir de uma fragilidade descoberta e que não há nada nesse mundo que não se resolva com um pouco de ternura e paciência.

Sem problemas familiares, Chris não teria descoberto o Alasca, não teria contado sua história e influenciado a vida de tantas pessoas, não teria emocionado meu querido gigante. Se eu não tivesse perdido tanta gente que amava, não teria fugido tanto, não escreveria tanto...

Não há liberdade que se conquiste sem algumas gotas de sangue. Não deve ter outro jeito... Assim como não deve haver história boa sem uma boa dose de coragem. Chris morreu do jeito que quis e, ao contrário do que pode parecer, não entregue a própria sorte. Num mundo onde o roteiro de nossas vidas vem traçado da maternidade e nos é cobrado diariamente pelo despertador, cartão de ponto e chantagens emocionais, morrer lutando por um pedaço de céu limpo é mais do que um ato heróico, é viver uma história amor.


PS.: meu querido gigante saiu do cinema introspectivo, eu sai com a vista cansada. :-)

novembro 8, 2007

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setembro 21, 2006

Banda Vexame Perdoada

Quarta-feira, véspera de feriado e me intimaram a cobrir duas peças teatrais e um show nos dias seguintes. Isso porque eu sofro de todos os males que sofrem os paulistas quando são obrigados a ficar na cidade em um feriado prolongado. Para nós, não viajar nessas datas, não fugir em desespero aos engarrafamentos da serra, é a morte. Uma morte deprimente, solitária e negativa no banco. Uma morte que nos enterra em um sofá e cobre de Domingão do Faustão. É assim que é ser um paulista classe-média nos dias de folga..
A proposta de escrever sobre a minha cidade era linda e com ingresso na faixa então, nem se fala. Mas em pleno feriado? Aceitei a contragosto...


- Alê, preciso do seu nome completo, CPF e RG. Seu e do fotógrafo...
- Fotógrafo?
- É... Ou você mesma irá fotografar?
- Hum...


Nessas horas, um crachá a mais sempre requer um plano mais elaborado...


- Só um instante, por favor... Sabe o que é? Estou atrasada pra uma reunião, vou avisá-los que atrasarei alguns minutos e ligo em seguida pra você. Pode ser?


A velha desculpa da "reunião" sempre faz eu me sentir importante. Desliguei o telefone e liguei para um amigo carioca que tinha planos de vir a São Paulo:


- Alô.
- Oi. Você vem esse fim de semana pra São Paulo?
- Quem é?
- Eu.
- Ah! Vou sim.
- Então me diz uma coisa: as fotos que você tira normalmente saem com ou sem a cabeça das pessoas?
- Acho que eu lembraria dos esculachos se tivesse cortado muitas cabeças... Por quê?
- Ótimo. Me dá seu RG e CPF.
- Pra que, Alessandra Felix?
- Ah, bom. Achei que você tivesse dito que sabia quem eu era só por falar...
- Bestona.
- Enfim... Tô atrasada. Você acaba de se tornar fotógrafo profissional. Adeus. Quando você chegar eu conto.


Eu sei, eu sei... Não se dá o golpe do segundo crachá em serviço novo. Mas, meu, era um feriado prolongado e eu sou uma paulista típica! Eu falei "meu"? Afe... Mas então, o problema é que detesto fazer coisas sem companhia. Sou capaz de morrer de catapora preta se tiver que entrar no cinema sozinha. Além do mais, aquelas seriam minhas primeiras experiências escrevendo por obrigação e eu teria que pensar antes de escrever. Uma companhia inspiradora era fundamental!

Assim que peguei os crachás, torci o nariz. Teria que assistir o retorno da Banda Vexame com a Marisa Orth e tudo... Horror! Imediatamente minha memória me levou para a década de noventa, para um fim de relacionamento e para as piadas de mau gosto da atriz.
Eu adorava aquele meu namoradinho, sabe? Mas a gente era tão grudado que a relação começou a fazer mal. Estava me sentindo feia, gorducha e de mau com a vida, mas a culpa era sempre do namoro. Ele também não andava feliz, mas achava que a culpa era dele mesmo. Tadinho...

Na tentativa de levantar nosso astral, resolvemos ver algo engraçado. Erro. Imaginem vocês, se anão ri de piada de anão! Onde já se viu loira rir de piada de loira? Os judeus devem estar de saco cheio de gracinhas sobre muquiranices, os portugueses não devem aguentar mais serem questionados sobre seus cérebros e se eu fosse mineira, juro, não comia mais queijo. Não aguentei. Achei péssimo. Quase chorei ouvindo as centenas de piadas rechunchudas que a então novata Marisa Orth soltava no palco. Nem adianta dizer que eu era uma tonta. O nome da minha crise era adolescência, não tontice. Marisa parecia uma metralhadora disparando contra o que restava da minha auto-estima. Quer coisa melhor pra dar fim numa história?

Uma década depois lá estava eu novamente... Uma das faixas que compunham a decoração brega do teatro dizia "Gorda, te amo. Me perdoa!". Pensei, "Pronto! Lá vem aquela vaca estressada com o peso, meter a boca em quem está fora de forma.". Pensei, mas pensei rápido. Mesmo estando mais gorducha do que no primeiro show, eu estava em paz. Estava de bem comigo, com meu corpo, com meu coração. Que viessem as piadas, porque eu havia aprendido a rir. Inclusive, do tamanho da minha bunda.

E era bobagem minha... No palco, todos os ingredientes bregas do momento: faixas de conversão de VHS, estátua de cachorro, antena de TV de pobre, churrasqueira de laje e uma banda incrivelmente talentosa. Cada música que eles desenterravam me fazia babar no arranjo. Banda perfeita, cenário perfeito, figurino perfeito. Marisa Orth comandava o show na pele de Maralu Menezes e incluía no espetáculo os convidados Malcon Ewerson (Carlos Pazzeto), Cido Campos (Marcelo Papini) e João Alberto (Fernando Salém). Juntos, eles me fizeram rir e cantar preciosidades do tipo: "P da vida" (Grupo Dominó), "Siga seu Rumo" (Pimpinella). Wando, Perla e outros ícones da música brega que saíam da minha boca de cor e salteados. Todo mundo ali cantava. Se vacilar, até o anão. Sim! Entre os integrantes da banda, há um anão que sabe rir de piadas do tipo "Quem nunca foi brega que atire o primeiro anão de jardim!". OK, anão de jardim é outra história. Mas sei lá - se inventassem de sair pregando gordinhos de jardim por aí, eu ficaria puta da vida. E mais: com dez anos a menos isso me faria ficar sem jantar durante uma semana!

Mas desta vez não chorei. Nem a faixa me abalou por muito tempo. No final, me rendi até aos encantos da dona Marisa. Ela é ótima, uma artista completa. Canta, interpreta, improvisa, faz humor. E nenhum talento é maior do que o de fazer rir. Talvez eu devesse ter visto isso há dez anos, mas era impossível. Culpa das limitações da juventude que fazem a gente chorar por uma espinha na ponta do nariz e não enxergar a rigidez dos glúteos.
Nos anos noventa, depois da banda Vexame, a falta do namorado e de chocolate me fizeram viajar pra bem longe de São Paulo. Dessa vez, agradeci por viver numa cidade com tantas opções de entretenimento. Tem que ter muito pouca criatividade para não aproveitar São Paulo nos feriados. A banda Vexame foi só o começo... E que puta banda! Uma banda que merecia ser vista e aplaudida porque sabe fazer festa como poucas. Sim, eu sei do que estou falando... Se há algo que conheço bem nessa vida, é festa de laje. Creiam: a deles, apesar da falta de caipirinha, faz a gente ir embora cambaleando. Delícia de começo de noite, prenúncio de momentos ainda melhores. Otimismo bobo que a gente sente quando está feliz, quando acaba de morrer de rir. Sabe como é? Deveria. Faz muito bem pra pele.

Ah! As fotos? Depois do Photoshop ficaram ótimas. E eu espero que o golpe do segundo crachá dure por muitos e muitos anos e eu possa arrastar vários amigos nas boiadas que o Vírgula decidiu me dar. Vida longa e próspera ao segundo crachá, assim como a essa coluna. ;-)


marisaorth.jpg

Mais fotografias do show, por Ramón Pedrosa, clique aqui.