Eu tenho o mau hábito de sorrir para as pessoas e o bom hábito de não esperar que elas sorriam de volta. Gosto de gente mais do que qualquer coisa nessa vida, mas, às vezes, detesto multidões Morro de curiosa, tenho evitado ser cruel com os outros e comigo, minto se for vital ou por diversão e raramente sou falsa. Não gosto de gente arrogante, cínica, dissimulada, narcisita e egoísta. Reconheço mau caratismo a um quilômetro de distância. Bebo só se for para ficar bêbada e faço endoscopia uma vez por ano para dormir e perder a razão. Durmo mal, durmo pouco. Já fiz regimes estranhos e desisti de todos eles. Fiz as pazes com meu corpo e, hoje em dia, ele até sorri pra mim. Nunca pintei o cabelo... Serei uma velha cabeluda, bicho-grilo e grisalha. Não uso mais maquiagem, só quando quero enganar alguém. Gosto de ganhar dinheiro, tanto quanto de gastá-lo. Gosto de jogos, trapaças e dinheiro fácil. Uma pena só dar valor para dinheiro suado. Sou uma mulher de sorte. Sorte no amor, nos jogos, nos negócios, amizades, família... Mesmo assim dou um jeito de me queixar. Gosto de trabalhar horas a fio, gosto de não fazer nada. Fui fotógrafa, assistente de leiloeiro, fali um bar de reggae. Vendi videotextos, micros velhos, poemas, passes escolares, livros paradidáticos usados, geladinhos azuis e bolinhos de chuva. Hoje tenho a editora, e ela ainda me faz bem. Quero aprender a escrever, desenhar, tocar violão e montar uma banda brega feminina, mas a preguiça nunca deixa. Invento palavras, falo palavrões cada vez menos e eventualmente me calo. Não suporto gente fútil, riquinhos que não sabem o que fazer da vida, rebeldes sem causa e problemáticos de plantão. Essa gente me cansa. Gosto de pessoas com coragem e me apaixono facilmente por gente que me faz rir, crer, pensar e gozar. Sinto falta de grandes paixões correndo nas veias, embora sinta vários amores transbordando do peito. Nunca achei que fosse casar, mas foi impossível não casar. Gosto de dormir abraçada, de ver TV enrolada no cobertor, de cuidar e ser cuidada... É provável que, um dia, me case novamente... Não gosto do frio, nem do calor; gosto de brisa. Gosto de músicas tristes, das que dão vontade de dançar, das que fizeram parte da minha história e das que tocarão quando eu for embora. Não gosto de música sem letra, a não ser que seja um tango. Às vezes, é ao som de "Por una Cabeza" que sinto minha vida passar. Gosto de chegar em casa e gosto de não ter casa. Quero ter sobrinhos, acho que não quero ter filhos. Queria ter cachorros e plantas, mas tenho medo de não saber cuidar tanto assim. Enquanto isso, me distraio vendo meus cactos crescerem. Gosto de dar festas, visitar o meu passado e fotografar minha vida. Já gostei de política, já levantei bandeiras. Hoje não acredito mais neste caminho. Lá em casa, não batizamos os bebês. Sou a filha mais velha de pais, avós, bisavós e tataravós pagãos. E fui presenteada com um espírito anarquico que se agarra na idéia de um deus que perde tempo jogando purpurina sobre nossos cabelos. Minha mente não pára, minha mente me cansa. Tenho sempre grandes idéias e convicções, mas todas elas mudam o tempo todo. Falo demais, escrevo demais... Muitas vezes me arrependo. Digo sempre que não tempo a perder e ele me escapa pelos dedos. Dentro de mim, mora uma louca inconseqüente que grita e faz estragos irreparáveis. Às vezes, sinto que seria mais fácil se ela não existisse, mas sempre que ela vai embora quase me perco entre tanta tristeza. Vivo os meus dias achando que estou perto do fim, mesmo acreditando secretamente que serei sorteada com algum tipo de eternidade. Deve ser porque adoro estar viva independente das alegrias e tristezas que estamos sujeitos. E acho um absurdo que todos não sintam o mesmo... Não entendo como é possível fechar os olhos para a graça das dores existenciais. Queria ter um jardim com vista para o céu, flores coloridas e uma espreguiçadeira. Um jardim que findasse as palavras, para que eu pudesse ouvir meu coração.Sei que estou cercada de pessoas queridas e agradeço por cada minuto de história compartilhada. Mas, cada dia que passa, me sinto mais só.
Alessandra Félix vive na capital de São Paulo, escreve o blog Amarula com Sucrilhos desde 2002, participa como colaboradora do site feminino Clube da Lulu e é editora dos livros Depois que Acabou, Balde de Gelo, Malvados e Blog de Papel publicados pela Gênese.
Alê Félix
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